13 fev

Por Guilherme Bittencourt

O designer Wes Gordon apresentou, na última segunda-feira (10/02), durante a semana de moda de Nova York, a coleção de ready-to-wear de outono-inverno 2020/21 para a marca Carolina Herrera, da qual é diretor criativo desde 2018, escolhido pela própria fundadora. Avesso à sobriedade e assumidamente fanático por cores (em 2019, disse para a Vogue Brasil que gosta de “desenhar roupas felizes para mulheres felizes”), Gordon voltou a rejeitar a neutralidade dos tons das estações frias para abusar de tecidos coloridos.

Wes Gordon continua a cumprir seu papel brilhantemente na CH, com êxito em seu propósito de não querer “reinventar a roda, apenas desenhar roupas bonitas”. Foto: Imaxtree

As 45 modelos que desfilaram na passarela branca circular pareciam gotas de tinta fluindo elegantemente sobre a paleta de um artista seguro da sua obra. Gordon acompanhou Herrera de perto por um ano antes de assumir completamente a criação da marca e entende o compromisso que a marquesa venezuelana teve com a elegância durante seus 37 anos como criadora. Ele não está lá para mudar os alicerces da grife, mas sim para integrá-los aos novos tempos, sem esquecer da figura que ele mesmo descreve como “uma mulher confiante, exuberante e cheia de vida”.

À procura do sorriso

E talvez o maior sucesso de Gordon na busca dessa estética seja o fato de que ela expressa algo facilmente associável: um desejo de otimismo. Não é difícil fazer um paralelo entre seu trabalho e os quadros da série “Minha Alma Eterna”, da assumidamente perturbada artista japonesa Yayoi Kusama, ricamente coloridos. Ou mesmo com o livro infantil brasileiro “Flicts”, de Ziraldo, que conta a história de uma cor que busca incessantemente por seu lugar entre as outras. Em certo momento “as sete cores se deram as mãos e voltaram a girar…”, excluindo o pobre Flicts.

No desfile, como na obra de Ziraldo, as cores também giram, em uma passarela ampla e redonda. A diferença é que nas mãos do estilista, Flicts (um tom de ocre), foi incluído na coleção, colorindo um poncho que apareceu logo no início, ainda que um pouco mais claro. O trabalho de Gordon une a sensação de alívio e desprendimento da arte de Kusama ao lúdico e inocente do texto de Ziraldo, mesmo que nenhum dos dois tenha sido sua referência. E isso se dá porque o desejo da felicidade é absoluto, e não particular a uma cultura ou indivíduo: “Você quer entrar no closet e encontrar algo que te faça sorrir, um pouco de fantasia”, afirmou o estilista no ano passado.

Compromisso com a elegância

A dramaticidade da coleção foi quase mascarada pela aparente simplicidade na escolha de não utilizar acessórios ou de se exaltar nas estampas. As mangas exageradas e a fluidez dos vestidos e da alfaiataria em tons lisos de azul, verde e laranja ocasionalmente deram espaço a estampas – sempre maxi-florais – que misturavam amarelo e preto, rosa e vermelho e azul e laranja (essa combinação desfilada primorosamente em um vestido curto e outro longo).

O preto e o branco também tiveram espaço em vestidos e conjuntos. Apesar de à primeira vista serem comuns e até tediosos, contrastaram de forma quase barroca com o restante das peças, dividindo o espectador entre aproveitar o “intervalo” para respirar em meio a abundância de cores ou se encantar ainda mais com o comprometimento do estilista em buscar a elegância também nos tons sóbrios.

Wes Gordon continua a cumprir seu papel brilhantemente na CH, com êxito em seu propósito de não querer “reinventar a roda, apenas desenhar roupas bonitas”. Carolina Herrera – que estava na primeira fila – continua a ver seu ideal de exuberância e alegria sendo impressos em sua marca, mesmo que sob a ótica de um diferente (e mais jovem) diretor criativo, que deixa o público ansioso para a próxima coleção.

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