22 jul

Por Thiago Andrill

Silvana Holzmeister é formada em Jornalismo, Letras e mestra em Moda, Cultura e Arte. Atualmente, é editora sênior de Moda da Harper’s Bazaar, coordenadora de Design de Moda da Belas Artes e se prepara para um doutorado em Sociologia. Além disso, foi editora de Vogue, L’Officiel e Gazeta.

Nesta entrevista, a jornalista e professora, que tem dois livros publicados, reflete sobre a produção acadêmica nacional de Moda, o panorama político e a sua relação com a sala de aula: “Trazemos o conteúdo de algum lugar, codificamos e transmitimos, sempre aprendendo”.

A jornalista e professora Silvana Holzmeister

A primeira graduação em Moda no país foi criada em 87, pela Santa Marcelina. Desde então, o entendimento de moda no Brasil mudou muito. Como vê o cenário hoje?

Acredito que, pensando em graduação, estamos em uma fase mais madura. Acompanhando a própria evolução do mercado, nos anos 90 você tem a corrente de desconstrução belga, o movimento de jovens talentos no mundo. Nós tínhamos uma preocupação maior com a criatividade livre de qualquer amarra, muitas vezes em detrimento do acabamento. Hoje, os alunos estão mais conectados com o mercado, com uma atenção maior ao produto que é apresentado. Tenhamos como exemplo a Casa de Criadores, o nosso parâmetro de mercado que mais se aproxima do que é feito nas escolas: dá para notar uma diferença plausível em termos de refinamento. Hoje, temos um aluno mais preocupado com isso e mais maduro em relação a empreendedorismo.

É preciso estimular este caráter empreendedor para o “pós-graduação”. Estamos em um momento de mercado super delicado. Além de conseguir um emprego, ele precisa ser capacitado a empreender, a pensar em economia criativa, a atentar-se à importância da sustentabilidade.

E em relação ao mestrado e doutorado?

Publicar o resultado de pesquisas no Brasil não é fácil. Mas eu vejo que, pelo menos os meus próprios colegas, que não são necessariamente da academia, olham com maior interesse para a possibilidade de estar em uma sala de aula como docentes, mesmo que ainda não tenham mestrado. Em muitas escolas, existe uma estrutura que permite ter profissionais do mercado como professores. As pessoas têm interesse. O encontro de academia com prática é muito saudável. Na Belas Artes, quase 100% do corpo docente tem prática de mercado. Isto é muito bom para o aluno, que se conecta com o que está acontecendo.

Os cursos livres de Moda, em universidades, têm crescido e são cada vez mais buscados por diferentes perfis de alunos. O que acha deste movimento?

Eu acho fantástico o caráter interdisciplinar. A troca, o networking. Eu estou dando uma pós de styling no Instituto Europeu de Design. Os alunos são de áreas completamente diferentes (direito, gastronomia etc) e têm em comum o objetivo de se posicionar no mercado como stylists. E por que não sair disso com um grupo de trabalho, um projeto?

E nós, professores, aprendemos o tempo todo: pela energia, jovialidade e experiências de vida de cada um. A gente está ali como uma figura que transmite informação, um canal. Trazemos o conteúdo de algum lugar, codificamos e transmitimos, sempre aprendendo. A figura do professor e a do jornalista são muito próximas. Eu sou uma figura da informação.

Como você enxerga a produção acadêmica de Moda no atual contexto de governo, que recentemente anunciou cortes de verbas das universidades federais?

Estou em estado de negação, até porque me preparo para um doutorado em Sociologia, que quero que seja na USP. Fiz as minhas duas graduações (Jornalismo e Letras) em federais. É um absurdo. Desta maneira, nega-se todo um papel social e de pesquisa que de fato existe, é latente. Na minha área, a pesquisa acontece em uma velocidade diferente, comparada com as de Biologia e Química, por exemplo.

As publicações têm um timing específico, não são tão imediatas, com um período de gestação mais lento e uma vida útil maior: quase 10 anos. Eu acho completamente equivocado falar que não tem pesquisa na área de humanas. Enquanto percepção de mundo, Moda é extremamente importante.

Pensando em legitimidade, acredita que a Moda seja percebida de que forma no meio acadêmico?

A gente ainda tem um caminho pela frente. Já quebramos muitas barreiras. Houve um tempo em que os pesquisadores de Moda eram discriminados. As pessoas olhavam apenas o lado frívolo da nossa área, que pode parecer bobagem, mas é muito importante mercadologicamente. Ele que faz a coisa girar do ponto de vista capitalista.

Talvez seja a indústria que mais bem representa o capitalismo

Ela tem mais de um lado. Às vezes, convenciona-se olhar apenas para um deles, para aquele que está mais aparente. Basta enxergar com maior atenção que é possível perceber a estrutura interior, que é bem densa.

Em muitas áreas, existem profissionais que atuam no mercado e na academia ao mesmo tempo, seja com mestrado ou doutorado. Com a Moda, essa associação não é tão direta. Por que?

Porque as pessoas são engolidas pelo mercado. Quando eu estava trabalhando full time em revista, eu não tinha tempo de estar em sala de aula. Hoje, eu estou na redação, mas em uma posição um pouco mais confortável, que me permite fazer outras coisas. Até mesmo pelo próprio momento do mercado. É um desafio, porque você faz mais de uma coisa ao mesmo tempo. Mas, mesmo assim, como você vai se comprometer a passar uma tarde fazendo mestrado? É muito complicado, a Universidade não é pensada para quem tem um trabalho que engole. Muitas vezes, o máximo que você faz é um mestrado profissionalizante à noite. Se tiver um cunho mais acadêmico, pressupõe-se que você esteja na academia.

Existem diferenças, no desenvolvimento de pesquisa de Moda, entre o Brasil e outras países?

Temos poucos pesquisadores e publicar livro não é fácil. Mas não é por falta de produtividade, fazemos bastante coisa. Entretanto, se olharmos o montante de livros, a produção internacional é maior. Temos uma grande dificuldade em publicar coisas no Brasil, pois não é barato. Eu tenho dois livros e o que eu recebi por eles de venda não foi tanto assim. Temos uma grande questão cultural de falta de valorização da leitura. Quantas editoras estão em situações complicadas? Quantas livrarias estão fechando? A gente é um pais que lê pouco.

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