20 abr

Por Nathalia Cunha

Não é de hoje que o SXSW, South by Southwest® Conference & Festivals, um dos maiores eventos de inovação do mundo, dá espaço para um conteúdo mais humano e político dentro da sua miscelânea de assuntos abordados. Entre palestras de negócios, música, cinema, blockchain, AI, VR, AR e todas as buzzwords tecnológicas que tanto ouvimos, estudamos e pouco aplicamos, o viés humano vem sempre junto daquela pergunta antiga: as máquinas vão nos substituir? Bom, já suspeitamos qual seria a resposta para essa pergunta dos anos 80 há muito tempo, certo? Não suspeita? Definitivamente, não. Não da forma que imaginam ou supõem. Porém, vale destacar, que não faz muito que estamos falando do nosso papel frente a evoluções cada vez mais rápidas e transformadoras.

Vamos ao clima e cenário do evento! Por lá, a Sony perguntou no seu estande, na rua principal da cidade: “Will technology enrich human creativity?”, vários painéis questionaram a forma que as big techs vêm operando (e lucrando) sem se importar com a nossa privacidade, para dizer no mínimo. A Macy’s apresentou sua plataforma colaborativa de storytelling colocando em letras garrafais no slide “precisamos passar de uma empresa vendendo para pessoas para pessoas vendendo para pessoas”. E, por fim, para esse parágrafo não ficar gigante, o americano e expert no assunto ‘tecnologia’ Douglas Rushkoff chegou a uma das maiores salas do festival para reforçar o seu compromisso com o time humano. Então, peço aqui licença para levantar a mesma bandeira do Douglas Rushkoff e trazer as 5 pessoas que de, alguma forma, me inspiraram, me fizeram refletir e tornaram a minha primeira vez no evento inesquecível.

Seja de verdade, seja você, por Bozoma Saint-John
CMO da Endeavor, ex-CBO da Uber, ex-Apple e ex-Pepsico, a Bozoma Saint-John subiu ao palco para ser entrevistada pela Ashley Granham e o tema central era como as tendências surgem. Bom, foi muito melhor que isso. Durante os 60 minutos que passou no palco, falou sobre a importância de ser quem somos e o valor da diversidade. Não a diversidade comercial, aquela que traz uma pessoa de cada etnia nos comerciais de televisão, mas aquela que começa no nosso grupo de amigos. “Se todos os seus amigos são parecidos com você, você também faz parte do problema”, ela disse e deixou uma sala inteira pensando nisso, provavelmente como você está agora. “Ninguém é você e esse é o seu maior poder” poderia ser só mais uma frase motivacional, mas vem essa mulher negra, mãe solo, executiva, que viveu parte da sua infância no Quênia para te provar que é possível sim transformar essas palavras em verdade e lema de vida.

Protagonista da jornada, por Alexandra Ocasio-Cortez
A congresswoman mais jovem da história dos EUA carrega uma legião de admiradores por onde passa e não é à toa. A energia que a Alexandra Ocasio-Cortez emana, o jeito que ela fala, gesticula, se posiciona, é tudo muito especial. Entrevistada pela editora de política do Intercept americano, ela trouxe sua visão democrata-socialista para a mesa de um jeito descomplicado e empático, colocando o indivíduo como protagonista não só do processo político, mas da vida. Ao ser perguntada por duas crianças de 11 anos qual era a dica que ela daria para meninas que querem entrar na política, ela respondeu: Não existe lugar para meninas negras latinas na política. E é justamente por isso que você tem que criar o seu espaço, você tem que fazer a sua voz ser ouvida. Esse é o seu super poder. Acreditar que você importa é ter o protagonismo necessário para promover as mudanças que você acredita, seja na sua casa, trabalho ou, quem sabe, no mundo.

Susan Fowler
A primeira mulher a denunciar os abusos sofridos na Uber e que encorajou uma série de funcionárixs a fazer o mesmo, Susan Fowler hoje é head de TI no The New York Times e subiu ao palco do  ballroom D, o maior do festival, com sua palestra cujo título era “O poder de uma história”. Tímida e com medo de palco, ela leu durante os 60 minutos que passou no palco, sua história. Não só pela superação e coragem de expor uma das maiores empresas de tecnologia do mundo, Susan inspirou todo mundo pela forma, mostrando que sua palestra não tinha só um título, mas uma lição: quando a história é boa e verdadeira, não importa a forma como ela é contada: ela sempre vai ter poder.

Mude o foco da energia, por Ash Maurya
“Ame o problema e não a solução”. O criador da metodologia Lean Canvas trouxe essa frase para a sua palestra e em um mundo onde milhares de três novas startups são criadas por segundo, ela representa uma mudança de paradigma. O nosso dia a dia pede soluções inovadoras a todo o momento, a busca é sempre pela melhor ideia e pelo melhor jeito de resolver aquele problema. Mas você já parou para pensar como esse modus operandi nos colocam reféns dessas soluções? Que muitas vezes, no meio do caminho, perdem o propósito de, justamente, resolver o problema inicial. Amar o problema te faz conhecer cada pedacinho dele, te faz ter certeza absoluta que você está sempre procurando uma solução para ele, não para criar a nova startup da onda ou ficar bem com o seu chefe.

A comédia pode ser a resposta, por Kathy Griffin
A comediante viu a sua vida virar de cabeça para baixo ao ter uma foto sua segurando uma máscara de Donald Trump ensanguentada em uma paródia de Halloween vazada pelo TMZ. Ameaças de morte dos apoiadores do POTUS viraram uma coisa comum na sua rotina, assim como demissão, ostracismo e as visitas do FBI no meio da noite para se certificar que estava tudo bem. O que ela fez com isso? Um filme/standup comedy financiado por ela mesma onde ela conta essa fase improvável e absurda onde o Presidente a impediu, inclusive, de sair do país. Ver uma mulher nos seus quase 60 anos, sem pedir desculpas por ser quem ela é, sem pedir desculpas por ter dinheiro para financiar seu próprio filme e mais: escancarando na mesa uma vida inteira de portas fechadas por ser uma mulher fora do padrão, é muito inspirador. De aplaudir de pé, como foi o que aconteceu no final.

Esses foram só algumas das pessoas que fizeram meu olho brilhar durante os 10 dias que eu passei em Austin. Sem falar naquelas que eu conheci, troquei ideia, dividi problemas (e cervejas), ouvi cantar e apresentar seus filmes. O SXSW é muito, muito mais que um evento de tecnologia e inovação: é um evento de pessoas, feito por pessoas e para pessoas. Quer coisa mais tendência que essa?


*Nathalia Cunha é formada em Publicidade e Propaganda e carrega 10 anos de experiência trabalhando com criação, branding e marketing de conteúdo. Hoje é Brand Experience Manager na Coteminas.

veja também os posts relacionados

Comente via Facebook

Deixe seu comentário

Instagram
Leitura de moda