20 fev

Por João Arthur Marinho

Ele foi responsável por levar ao jornal Folha de São Paulo um olhar mais crítico sobre a moda, trazendo uma perspectiva com peso cultural maior que o de consumo.  Foi entre uma página e outra do caderno Ilustrada e da revista Serafina que o jornalista Alcino Leite Neto fez com que o tema fosse visto com seriedade dentro do âmbito jornalístico. Como? Muita apuração, apreço pela investigação, excelência no texto, zero vínculo com marcas e muita responsabilidade para com o seu leitor. As premissas que são básicas para acontecer um bom jornalismo, mas coisa rara de se ver quando o assunto é moda, infelizmente.  E foi diante de tanto repertório cultural e de um trabalho bem-feito no mercado editorial que convidamos o profissional para falar sobre Moda, Cultura e Comunicação. E o resultado do bate-papo você vê aí abaixo!


Desde a época em que iniciou o trabalho com moda até hoje, o que mudou na sua forma de pensar em relação ao tema?
Duas coisas, essencialmente, mudaram na forma de eu pensar a moda desde que comecei meu trabalho. Primeiro, me dei conta que a moda tinha uma dimensão econômica muito maior do que eu pensava, e essa dimensão só se amplia, com novas modalidades, como o comércio online. Segundo, que a moda tinha uma dimensão histórico-cultural muito mais complexa do que eu julgava, o que também só se amplia, à medida que aparecem estudos mais elaborados sobre o assunto.

O jornalismo de moda só é jornalismo de moda quando… 
…leva a sério o jornalismo como investigação independente e interessada dos fatos. Quando deixa de ser uma variação da publicidade e do marketing (sob a fachada de “jornalismo”) e busca apresentar os acontecimentos e novidades da moda de maneira isenta, crítica, plural e estimulante.

Para esse jornalismo ser levado a sério é preciso bons jornalistas e boas mídias, impressas ou digitais, que tratem o assunto de maneira menos banal, conjugando informação precisa, visão crítica independente e criatividade nas abordagens. Essa visão mais adulta e consequente da moda, porém, não precisa ser nem sisuda nem esnobe: seu objetivo é levar a cultura de moda para um maior número de pessoas, de maneira interessante e esclarecedora.

Quando se fala de cultura de moda, qual a visão que devemos ter diante desse assunto ao pensar em sua importância no que se refere ao contexto social? 
Não penso que exista “uma” visão determinante, hoje, mas uma variedade de visões sobre a cultura de moda e sobre a relação entre moda e cultura, moda e sociedade. Penso que, hoje, é preciso tentar entender como as transformações sociais estão impulsionando a moda para uma direção inédita. Vivemos num mundo hiperconectado, onde valores são criados de maneira plural e sem hierarquia. Já não existe um “centro” de influência da moda, nem físico nem criativo. Valores novos são criados por todo canto, com grande velocidade. Com isso, há uma forte perda de influência das grandes marcas e dos estilistas-estrelas. Por outro lado, paradoxalmente, há uma crescente concentração industrial da produção de moda, o que leva à tendência, à uniformização, num registro criativo baixo, já que a produção em grande volume requer simplificação dos estilos e uma padronização dos gostos. Parece cada vez mais difícil, num tempo também hipercompetitivo e muito veloz do ponto de vista produtivo e comercial, impor criações que não gerem um entendimento rápido das pessoas e um consumo acelerado. Tudo isso debilita muito a parte mais criativa, audaciosa, da moda, que tende a ficar cada vez mais restrita e elitizada (não em termos estritamente econômicos), produzida por estilistas solitários e com pequeno respaldo industrial, e consumida por muito poucos, por uma espécie de “vanguarda”, não necessariamente preocupada com o luxo, mas com a invenção.

Por último, penso que chegamos ao fim da fantasia do “luxo acessível”, por causa da crise econômica que atinge o mundo inteiro e parece que não será resolvida tão brevemente. Deverá haver apenas o luxo, como antes, dirigido à elite econômica mundial, com um nível de criatividade mais baixo que nas últimas décadas, dado o conservadorismo atual dessa mesma elite. É preciso também levar cada vez mais em conta  a forte influência que exercem as estrelas do show-business (cantoras, estrelas de TV e do cinema, etc.) sobre o estilo mundial, sobretudo porque a informação está tendendo a circular de maneira cada vez mais visual e falada (e menos escrita). E, com a crescente influência dos blogs, é preciso avaliar criticamente como atuam na produção do gosto contemporâneo, em particular o juvenil, submetendo-os também à crítica e à investigação jornalística.

 

Ao pensar na cultura de moda europeia, é possível observar que a atividade é bem-vista e valorizada. No entanto, no Brasil a temática ainda é tida como superficial. Por qual motivo não conseguimos ver a moda dentro de um contexto cultural no cenário nacional? Quais pontos poderiam ser melhorados para que a moda fosse enxergada de uma nova forma? Consegue fazer um breve análise?
Penso que as razões são sobretudo históricas, relacionadas à economia e à cultura. Na França, a moda se constituiu historicamente como indústria sólida, espalhada por vários setores (do têxtil aos acessórios e calçados) e de alcance internacional, pelo que pôde criar um excedente “luxuoso” (ou criativo), que foi cultivado em termos culturais pelas marcas, pelo comércio e até pelas instituições e a opinião pública (inclusive imprensa).

O Brasil, como vários outros países da periferia do capitalismo, não criou as condições econômicas favoráveis a esse desenvolvimento, ou as criou de maneira episódica e instável (sucessos sendo sucedidos por bancarrotas etc.). Basta comparar o número de marcas brasileiras de alcance internacional (talvez uma ou duas, como Havaianas) com o número delas na França (ou na Itália ou nos EUA).

Também o nível de renda no Brasil dificulta o desenvolvimento de uma roupa sofisticada, embora não impeça o desenvolvimento de uma indústria de moda, digamos, “popular” (de baixo custo, mas com particularidades de estilo). O Brasil é um país “com estilo”, se se pode dizer, coisa que não é tão comum entre os países: pense por exemplo no Canadá ou na Austrália. São belos países, mas não costumam ser lembrados por sua música, seu design, sua arquitetura e pelas particularidades de sua gente.

Já defendi que a moda no Brasil seja “popular e democrática”. Ou seja, que ela se desenvolva levando em conta a contribuição imemorial do estilo popular e do gosto geral dos brasileiros (é ainda o caso das sandálias Havaianas, do beachwear e mesmo do jeans), visando atingir, com um design criativo, um maior número de pessoas. A vocação da moda brasileira não é aristocrática (como na França, por sua história) nem burguesa (como na Itália). Está muito ligada à informalidade da vida nacional, ao estilo despojado do streetwear e à herança cultural do país (em que se mesclam elementos de várias origens: desde africanas até europeias). Só consigo ver futuro para a moda brasileira quando vislumbro um design que aceita, gosta e reelabora as particularidades da cultura do país, considerando o nosso modo de vida e nossa situação social e racial. Toda vez que o Brasil manifesta sua singularidade com firmeza, o mundo nos observa fascinado, como ocorreu com a Bossa Nova, o Cinema Novo e outras manifestações fortes.

Engatinhamos nas pesquisas e reflexões sobre a moda – seja na indústria têxtil ou no contexto histórico. Sua visão é otimista quando se pensa em moda dentro da área acadêmica?
Sou mais otimista hoje do que era antes, pelo que tenho visto desenvolver como estudos de moda no âmbito acadêmico. Mas faltam incentivos (por exemplo: revistas que divulguem melhor os trabalhos, ou editoras que publiquem as teses). Os “fashion studies” estão se desenvolvendo muito hoje no mundo. Haveria que se incentivar mais esses estudos no Brasil, pelo que eles revelam sobre a cultura e a história do país.

Do ponto de vista das pesquisas industriais, o que é outra coisa, penso que elas também dependem de incentivo, sobretudo das próprias indústrias, que poderiam se associar às escolas para buscarem soluções criativas e tecnológicas novas para o sistema fabril e comercial da moda no país, considerando as nossas dificuldades materiais e o estilo próprio do brasileiro.

Há relatos de que Gilda de Mello e Souza teve que enfrentar alguns obstáculos dentro da academia para poder seguir com a sua tese de doutorado, na qual trouxe a manifestação da cultura de moda dentro de uma sociedade e trouxe a função social da roupa para os holofotes acadêmicos. Diante disso, será que pode nos falar o que ainda, de fato, não compreendemos a moda? Para onde devemos olhar para ter a moda como um instrumento importante de análise e estudos sobre uma cultura? O que está faltando em nossa sensibilidade perceptiva?
De fato, parece que dona Gilda enfrentou resistências na USP. Havia a percepção de que a moda é coisa fútil, o que ainda vigora no ambiente acadêmico, parece. Entretanto, ela fez a sua tese, que é um marco. E o recado deixado por esse trabalho é que os pesquisadores de moda precisam enfrentar com coragem e vigor as resistências e provar que seu objeto de estudo é importante e interessante.

Para tanto, é preciso que eles ampliem e aprofundem os estudos sobre moda e as roupas “em relação” com outras disciplinas, como a história, a economia, as artes, a sociologia e mesmo a psicologia. É o que têm feito os pesquisadores, em geral americanos, dos “fashion studies”.

É preciso entender que a moda e as roupas não constituem um universo à parte, “a-histórico”, mas fazem parte de uma história geral da economia e da cultura capitalista e ocidental (como ressaltou Fernand Braudel). A percepção intelectual sobre a moda pode mudar à medida que surgirem trabalhos sólidos e relevantes, divulgados de maneira consistente e constante. Há muito o que estudar sobre a moda brasileira, à luz de nossa formação histórica.

ALCINO LEITE NETO é formado em jornalismo pela PUC-MG e é mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Atualmente, é editor da Três Estrelas, editora de livros de não-ficção e jornalismo do Grupo Folha e também faz parte da equipe de articulistas da “Folha de S.Paulo”. Já foi editor de “Moda” da “Folha de S.Paulo” e editor do caderno de cultura “Ilustrada”, do mesmo jornal.

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